05/02/2026
A Peritonite Infecciosa Felina (PIF) é uma das doenças mais complexas e desafiadoras da medicina felina. Embora o conhecimento sobre sua patogênese tenha evoluído, o diagnóstico ainda exige atenção e interpretação criteriosa dos resultados laboratoriais.
Causada por uma mutação do coronavírus felino (FCoV), a PIF surge quando um vírus intestinal aparentemente inofensivo sofre alterações genéticas e adquire a capacidade de se replicar em macrófagos, levando à disseminação sistêmica e a uma resposta inflamatória severa. O desfecho clínico, como se sabe, depende da interação entre o vírus, o sistema imunológico e o ambiente em que o gato está inserido.
Entendendo o comportamento do FCoV
O coronavírus felino (FCoV) é amplamente distribuído entre populações de gatos, principalmente em locais com alta densidade populacional, como gatis, abrigos e lares com múltiplos felinos. A transmissão ocorre principalmente por via oral-fecal, mas também pode acontecer por mordeduras, contato direto com secreções e, em casos menos comuns, transmissão transplacentária.
A maioria dos gatos infectados pelo FCoV desenvolve apenas infecções entéricas leves ou assintomáticas. Entretanto, em uma pequena porcentagem dos animais, o vírus sofre mutação espontânea dentro do organismo e se transforma em uma cepa patogênica. É essa mutação que dá origem à PIF, cuja evolução depende fortemente da resposta imune do hospedeiro.
Em gatos com resposta imune ineficaz, o vírus se dissemina pelos macrófagos, atingindo diferentes órgãos e tecidos. A partir daí, surgem as duas formas clínicas da doença: efusiva (úmida) e não efusiva (seca).
Formas clínicas e apresentação
Forma efusiva (úmida)
A forma úmida é a manifestação mais clássica da PIF. Ocorre quando há uma resposta inflamatória intensa nas cavidades corporais, resultando em acúmulo de líquido no abdômen ou tórax.
Clinicamente, observa-se:
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● distensão abdominal;
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● dispneia progressiva;
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● febre persistente não responsiva a antibióticos;
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● mucosas pálidas;
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● apatia e perda de peso acentuada.
O líquido efusivo típico da PIF é de coloração amarelada, viscoso e com alto teor proteico, características que ajudam o clínico a diferenciar de outros tipos de efusões. Ainda assim, a confirmação laboratorial é indispensável.
Forma não efusiva (seca)
A forma seca apresenta evolução mais lenta e sintomatologia variável, de acordo com os órgãos afetados. É comum observar:
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● sinais neurológicos, como ataxia, convulsões e alterações comportamentais;
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● uveíte e outras inflamações oculares;
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● icterícia;
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● febre intermitente;
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● emagrecimento progressivo e fraqueza.
O desafio, aqui, é que os sinais são inespecíficos e podem simular diversas outras enfermidades, como toxoplasmose, linfoma, hepatopatias e doenças neurológicas.
Em alguns casos, há ainda manifestações respiratórias e gastrointestinais — dispneia, tosse, diarreia, que ampliam o espectro de diagnósticos diferenciais.
O desafio do diagnóstico: raciocínio clínico e integração de dados
O diagnóstico da PIF não é simples e raramente se baseia em um único exame. A interpretação deve sempre integrar dados clínicos, laboratoriais e moleculares.
O primeiro passo é a avaliação clínica detalhada, com anamnese completa e atenção especial à origem do paciente. Gatos jovens, provenientes de ambientes coletivos e com histórico de estresse, apresentam maior risco.
No laboratório, alguns achados sugerem a doença, embora não sejam patognomônicos:
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● hiperglobulinemia;
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● relação albumina/globulina (A/G) menor que 0,8;
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● anemia não regenerativa;
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● linfopenia;
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● aumento de enzimas hepáticas.
Nos casos efusivos, o líquido cavitário apresenta teor proteico elevado e aspecto viscoso-amarelado, com densidade próxima à do plasma. A análise do líquido, somada à dosagem de proteínas, pode direcionar a suspeita clínica e indicar o momento ideal de solicitar o PCR para FCoV mutante.
PCR: o exame que confirma o diagnóstico
O PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) é hoje o exame mais sensível e específico para confirmação da PIF.
Por meio da detecção do RNA viral, é possível confirmar a presença do coronavírus mutante nas amostras biológicas do paciente.
O teste pode ser realizado em:
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● líquidos cavitários (abdominal ou torácico);
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● sangue total ou plasma;
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● tecidos afetados, como fígado, rim, linfonodo e sistema nervoso central.
A detecção do FCoV mutante por PCR é decisiva, especialmente quando os sinais clínicos e laboratoriais são compatíveis, mas a sorologia não é conclusiva.
Além do diagnóstico, o PCR quantitativo (qPCR) pode auxiliar no acompanhamento do paciente, permitindo avaliar a carga viral e monitorar a resposta terapêutica em casos tratados com antivirais.
Por que a sorologia isolada não é suficiente
A sorologia é útil para identificar a exposição ao FCoV, mas não distingue entre a forma entérica benigna e a forma mutante que causa PIF.
Por isso, resultados sorológicos positivos devem ser interpretados com cautela. Da mesma forma, um resultado negativo não exclui a doença e gatos com PIF avançada podem apresentar queda na produção de anticorpos.
O médico-veterinário deve, portanto, evitar decisões baseadas apenas na sorologia e sempre recorrer a métodos moleculares e à avaliação clínica detalhada.
O manejo do paciente e as novas perspectivas terapêuticas
O manejo de gatos com PIF requer abordagem cuidadosa e individualizada.
Embora o prognóstico ainda seja reservado, o diagnóstico precoce tem impacto direto na qualidade de vida e no sucesso terapêutico.
Nos últimos anos, surgiram protocolos antivirais experimentais que vêm demonstrando eficácia, especialmente em casos diagnosticados precocemente. Isso reforça o papel do médico-veterinário na identificação precoce da doença e na monitorização laboratorial.
O suporte clínico inclui:
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● estabilização dos sinais clínicos;
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● controle de infecções secundárias;
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● suporte nutricional e manejo do estresse;
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● acompanhamento contínuo com exames laboratoriais.
A evolução do paciente deve ser acompanhada de perto, com atenção a alterações hematológicas, bioquímicas e moleculares.
A importância do diagnóstico laboratorial de qualidade
O sucesso no diagnóstico da PIF depende diretamente da qualidade e confiabilidade dos exames laboratoriais.
Laboratórios especializados, como a Zoogene, oferecem infraestrutura e equipe técnica preparada para realizar o PCR para FCoV mutante com precisão e agilidade, além de outros exames laboratoriais veterinários que complementam o raciocínio clínico.
Essa parceria entre clínico e laboratório é fundamental: o veterinário observa, interpreta e decide, enquanto o laboratório fornece a base técnica e científica para confirmar o diagnóstico e direcionar condutas.
